Coroa,
gordinho, evangélico, deficiente, gay, emo, torcedor, nerd, adúltero ou
funcionário público. Contrariando o ditado de que os opostos se atraem,
milhões de pessoas procuram parceiros parecidos consigo mesmos em sites de relacionamento cada vez mais segmentados.
Aos 56 anos, a engenheira Iara Paes de
Almeida estava cansada de receber, nos sites, cantadas de molecões
aventureiros. Aderiu ao Coroa Metade, para pessoas com mais de 40.
"Estou entre os que têm mais passado que futuro. Não quero brincadeira,
quero relacionamento sério."
Ela está separada há 20 anos e, com
as duas filhas já adultas, começou a sentir cada vez mais falta de um
companheiro. A inscrição no site teve resultado rápido. Hoje é cortejada
por um homem de 56 anos, um de 62 e outro de 65. Um deles largou na
frente e já fala pelo telefone com Iara. "Não quero relacionamento
virtual. Quero um cara que vá ao cinema, ao teatro, a shows."
Há pouco mais de quatro meses no ar, o site
tem 17,4 mil cadastrados. O criador da página, Airton Gontow, de 51
anos, se inspirou ao reencontrar amigos que não via havia 30 anos em uma
festa. Mais da metade estava separada. "Escutei muito durante a festa:
?Eu conheço mulher fácil, saio para night. Companhia eu encontro, mas
companheira não?", disse Gontow.
A onda de segmentação fez com o arquiteto
de informação Maicon Santos, de 30 anos, criasse 11 redes sociais
diferentes. O Na Medida reúne o Amor de Peso, Amor de Idade, Amor Nerd,
Amor Vital (para soropositivos), Amor Normal (para deficientes), entre
outros. A maioria dos sites faz cadastro gratuito e cobra por vantagens,
como mandar mais mensagens e poder colocar mais fotos no perfil.
Felicidade
Santos comemora os resultados. "Recebi
e-mail da mãe de um rapaz com síndrome de Down que contou que o filho
conseguiu passar a se relacionar com outras pessoas."
Sua criação mais famosa é o Namoro Estável,
voltado para funcionários públicos. A servidora federal Adriana (nome
fictício), de 36 anos, gostou da ideia. "Meu ex-marido não era servidor e
vivia me ridicularizando. Sabe aquela história do cara que não passa em
concurso e fica desdenhando?" Ela diz que entrou na página para
procurar amigos. "Mas se aparecer aquele cara legal, por que não?"
Guetos virtuais
Os sites de relacionamentos para grupos cada
vez mais específicos liberam pessoas tímidas para agir com mais
naturalidade em meio aos iguais. No entanto, alertam especialistas, as
páginas também criam guetos e a segregação pode acabar fazendo com que
algumas pessoas caiam no tédio.
"Essa similaridade faz com que pessoas se
comportem de forma mais natural e não fiquem na expectativa de ter um
perfil diferente ou serem vistas como diferentes", diz Thiago de
Almeida, psicólogo especialista em relacionamento amoroso. "Mas, se não
entram novos membros no grupo, as pessoas podem ficar desgostosas",
afirma.
A necessidade de encontrar iguais é
antiga. Antes da internet, por exemplo, já havia os grupos de dança
frequentados por idosos que acabavam formando novos casais. Depois, a
primeira grande rede social a virar moda no Brasil, o Orkut, passou a
desempenhar esse papel. "No Orkut, havia as comunidades de que você
quisesse. Com a transposição para o Facebook, perdeu-se esse espaço",
afirma Andréa Jotta, professora do Núcleo de Pesquisa da Psicologia e
Informática da PUC-SP.
Evangélicos
O empresário Marcos Vieira, de 33 anos,
notou que a internet serve para promover encontros há 14 anos, quando
abriu seu primeiro site. Em 2009, notando a tendência de segmentação do
mercado, criou o Romance Cristão, para evangélicos. Ele afirma que as
histórias de casamento são muito mais comuns entre os frequentadores de
igrejas. "São muito poucas as igrejas que têm encontros para grupos de
solteiros. Às vezes, a pessoa que ela procura não está na igreja que
frequenta, mas na do bairro vizinho ou na cidade vizinha", afirma.
As vezes a pessoa pode estar ainda mais
longe. O operador industrial Roberto Oliveira da Silva, de 35 anos,
encontrou sua cara-metade no Ceará. O esbarrão só podia mesmo ser
virtual. "Ela diz que minha foto apareceu na página dela e ela clicou.
Então, eu entrei em contato com ela", lembra Silva.
Depois do primeiro encontro na internet, as
coisas andaram rápido para ele e Jéssica Gerliane Lima dos Reis Silva,
de 22 anos. "Em três meses, a gente conversou, eu conheci a família
dela, ela conheceu a minha e a gente marcou o casamento", afirma.
Detalhe: todo o namoro aconteceu pela internet.
Evangélico, Silva já havia sido casado antes
e os dois relacionamentos não deram certo. Antes de marcar o novo
casamento, os dois procuraram se conhecer o melhor possível, dentro dos
limites que o computador impõe. "Para mim, não teve nenhuma diferença,
tentamos tirar nossas dúvidas conversando pela internet", disse. "Pelo
Skype, eu mostrei meu ambiente familiar, ela mostrou o dela. Ela me viu
fisicamente, ela se mostrou com a devida precaução, respeito", diz.
Pessoalmente, o casal só foi se conhecer na
semana do casamento, quando Silva pegou um voo para Fortaleza. "Ver a
pessoa que você tanto quer. Foi um choque, mas não foi uma surpresa,
porque a gente se conhecia", diz.
O casamento aconteceu há dois anos. "Tive
outros dois relacionamentos que não deram certo e, com ela, tudo
funciona. Nós pensamos parecido, a gente almeja conquistar as mesmas
coisas", diz. A maior conquista do casal deve chegar em dois meses. E
será um menino. O nome já está escolhido: Caleb Emanuel. As informações
são do jornal
O Estado de S. Paulo.